Vim pra contar hoje, como tive a certeza de ter escolhido a profissão certa. Mas, antes de iniciar a narrativa do meu acerto, quero deixar bem esclarecido àqueles que, assim como eu, entrarão cegamente nessa aventura de leccio.
Amigos, a vocês eu dedico esse texto. Não caiam no conto daqueles que dizem ter uma missão. Não acreditem que seja, acima de tudo, lucrativo e prazeroso lecionar. Não creiam que todos podem ser bons professores. Porque vos afirmo tal blasfêmia? Posso tentar explicar: Garanto já terem escutado a expressão “a corda sempre arrebenta do lado mais frágil”. Portanto, saibam colegas, o professor é o lado mais frágil! Espanto? Há tanto é assim.
Há um complô irracional contra o professor. E afirmo, não é elegante e nem saudável esse complô. Eu reclamo, mas não me importo. (A frente falarei o porque.) O aluno despeja a culpa do desinteresse no seu professor, o Estado paga mal esse profissional, mas ao mesmo tempo o carrega de ofícios. (Somos pais, amigos, psicólogos, juízes de boxe, entre outras atividades…) Mesmo assim, o Estado nos quer lá, ávidos, vigorosos, cheios de ideologias e composturas. A sociedade nos quer polidos. Sempre procuro comparar a profissão do professor com a do padre. Faz sentido. Padre é padre, dentro ou fora da Igreja. Tem que se comportar tal qual, pois tem a missão ética e moral por traz de sua figura. Professor, igual.
Ok, continuemos. Há vários outros pontos negativos, talvez até piores do que os supracitados. A zona dentro da sala de aula e a impotência do professor contra marmanjos que não queriam estar lá, aprendendo, mas que temos que manter exatamente naquele lugar, até se formar e se tornar mais número positivo no senso da ONU, por exemplo.
Antes de continuar eu pergunto: Vocês, das licenciaturas, estão prontos pra enfrentar isso tudo e um pouco mais com garra e principalmente responsabilidade? Se a resposta for não, parem por aqui. Agora, se a resposta for afirmativa, estejam seguros das recompensas.
Bem, minha história na licenciatura, eu acho que começa antes de minha consciência atinar pra isso. Sempre gostei da maneira em que os professores se relacionavam conosco, enquanto estudantes do ensino fundamental e antes de prosseguir, preciso citar um nome em especial, meu norte educacional, minha inspiração: Marcos, querido professor Marcão! Esse cara é o responsável por tudo de bom, relacionado à educação, que há em mim, no meu caráter. Depois de registrado esse apreço, quero contar minha experiência que provou a mim que poderia me dar bem nessa área.
Era meu tempo de estágio obrigatório, da faculdade. Estava apenas substituindo o professor de Ed. Física que por ventura havia faltado naquela oportunidade. Sob minha responsabilidade havia uma turma de 6ª série, onde havia dois alunos com deficiência auditiva. Pra mim era muito difícil me acostumar com aquilo e, de certa forma me sentia acuado, com medo de agir de forma imbecil. Como era meu primeiro dia na frente de alguma turma, em alguma escola, eu estava coberto de medos. Mas, desse medo que me acometia, surgiu o maior acerto, segundo minha própria consciência. De início, dividi a turma entre meninas e meninos. As meninas foram brincar com a bola, no pátio e os meninos, quase obrigatoriamente, queriam jogar futebol. Concordei, formando três equipes, onde cada time jogaria no famoso 10 minutos ou dois gols (Não vou explicar aqui, se não conhecem, o Google pode explicar). Até aí, nada de mais, porém, em um desses times, teria que estar o menino com deficiência auditiva e, imediatamente quando escolhi uma equipe para ele, a equipe inteira veio reclamar apontando-o como incapaz. Tenho que frisar, antes de continuar, que mesmo não valendo nem uma bala, ganhar nessas “competições” é questão de honra pra alguns. Continuando, fiz uma breve reunião com a equipe daquele menino e disse que tal era tão capaz quanto qualquer outro e que ele jogaria sim, bastaria os demais fazê-lo participar. Não sei explicar, não sei o que aconteceu. Senti algo, percebi algo. Aquele time foi para a final daquele torneio rápido, de três equipes e parecia mesmo questão de honra vencê-lo.
A esta altura, essa história já está quase com um final óbvio. Irei direto a ele. O jogo estava empatado em um a um e faltava menos de dois minutos para o fim. Se terminasse assim, teríamos que ir para os pênaltis. Nem sei como ocorreu, mas, o time do “surdinho” (que era como os colegas o chamavam), num contra ataque meio desesperado chutou a bola pra frente, na direção dele que, quase instintivamente, enfiou o pé na bola e ela vagarosamente entrou no gol adversário. Pois é, tinha feito o gol da vitória e do “campeonato”. Eu não sei descrever exatamente o que passou naquele momento na minha cabeça. O que sei é que foi um arrepio muito parecido com o qual estou sentindo agora e igual ao que eu sempre sinto quando conto essa história pra alguém.
Talvez não tenham achado uma boa história. Talvez não tenham sentido orgulho, ou talvez nem se importam com isso. Mas eu digo, se um dia, você que faz parte de qualquer instância da educação, sentir emoção enquanto estiver no ofício, tenha certeza, o sangue que corre nas tuas veias é o sangue de professor. Porque, embora haja tudo aquilo que eu mencionei no início desse texto, se nas tuas veias tiver esse sangue diferente, não te importarás com nada daquilo. Sim, irá te decepcionar algumas vezes. Talvez quase todos os dias, mas será justamente isso que te fará, no outro dia, voltar à escola e tentar mudar a vida de alguém.
Falando em mudar a vida, nessa minha feliz história, talvez o “surdinho” não tenha sentido nada de especial. Talvez a lição de moral à equipe que não o queria, também não tenha surtido efeito, mas, com toda a certeza, a vida de alguém mudou depois desse episódio. Sabem de quem? Sim, a minha.