Texto que eu elaborei em meados de 2007 (acho) pra disciplina de Psicologia da Educação. Acho que continua atual, por isso decidi compartilhar.
Análise do livro:
MORALES, Pedro. A relação professor-aluno: o que é, como se faz. 6ª ed. São Paulo: Loyola, 1999.
O processo de aprendizagem não se dá somente com a questão didática, mas sim, num contexto muito mais complexo que atinge diretamente os seres que pré-dispõem uma relação, que perpassa a sala de aula, mas que não se limita a tal espaço físico. Todo o processo de relação incide direta ou indiretamente no aprendizado do aluno. Este é o principal enfoque que o livro traz.
A relação professor-aluno traz alguns resultados, como supra citado, diretos ou indiretos. O autor cita esses processos. Dá-se quando a relação implica num aprendizado (ou não) espontaneamente. Como, por exemplo, um resultado não intencionado. Esse tipo de resultado apresenta-se quando um aluno vê o professor tal qual um ícone a ser seguido, ou a não ser seguido. Portanto esse tipo de aprendizado foge ligeiramente do controle do causador da impressão. No entanto, justamente essa impressão, que é muito importante numa relação, é o que vai determinar muitas vezes o rumo do aprendizado. O autor defende que, principalmente, a primeira impressão é a que ambos (professor e aluno) guardam do próximo. Logicamente, essa impressão pode e certamente será modificada ao decorrer do relacionamento, porém, certos detalhes serão mantidos somente por preconceitos (entendem-se preconceitos como conceitos prévios, assim como traz a etimologia, e não como qualquer tipo de racismo, ou algo parecido). Com todo esse cuidado que se tem que ter na hora de ensinar, o que realmente ensinamos? Um questionamento que o autor levanta sem trazer necessariamente a resposta. Simplesmente porque não há resposta correta para essa pergunta. Nós ensinamos até mesmo sem querer ensinar, ou, na pior das hipóteses, ao contrário do que intencionávamos ensinar. Nossas roupas, nossas atitudes, nossos olhares, as perguntas em sala, posicionamentos, linguagem; tudo isso relativa à educação. Portanto, devemos nós, professores (ou futuros), estarmos cientes de que o que somos fora da sala de aula, até mesmo dentro de nossas casas, pode influenciar no que passamos aos nossos alunos. Com tamanho peso em nossas costas, defendo que ser professor é muito mais que uma profissão, é um estado, uma condição. Assim como um padre deve obedecer aos preceitos religiosos da igreja Católica, os professores devem andar na linha. Porque, como cita o autor, não basta dizermos algo aos nossos alunos, temos que acreditar e praticar o que falamos. As ações ensinam muitíssimo mais do que as palavras.
É muito complicado ser bom professor. Um bom professor, além de ter que mudar sua vida social para atender aos “pedidos” do sistema, ainda tem que dominar o assunto que leciona, saber se portar em sala, exterminar seus preconceitos (no mesmo sentido anterior), avaliar cada aluno individualmente ao mesmo tempo que dispensa o mesmo grau de atenção à toda classe e ainda, cumprir com as requisições administrativas. O bom professor (no modelo apresentado anteriormente) é bem visto assim pela comunidade, colegas e, mais importante, pelos seus alunos. Sendo um mestre preocupado, que sabe solucionar os problemas individuais, mas que consegue, porém, direcionar a classe num todo. Exterminando, por exemplo, os maus comportamentos, que atrapalham o desenrolar de uma aula. Um modelo satírico encontra-se nas páginas 46 e 47 do texto analisado, onde o autor exprime um “Decálogo do bom Professor”. Uma amostra divertida, porém, como na maioria das ficções, está carregada de verdades.
Lembremos novamente que não somente o professor que influencia o aluno. A recíproca também é verdadeira. Todo o processo se dá em verso e reverso. Se, às vezes, os professores têm preconceitos para com os alunos, os alunos muitas vezes taxam os professores por aparência, experiências de terceiros, etc. Se muitas vezes o professor analisa os atos dos alunos, os alunos também reparam nas atitudes dos professores. E, por experiência vivida, alguns professores, assim como alguns alunos, tornam-se motivo de piadas ou de muito assunto nos corredores das escolas, ou perante a sociedade. Muita atenção deve ser dispensada nesses casos. Porque, tornando ao assunto anteriormente comentado, as vezes nem é o que o indivíduo faz que o rotula, mas sim como o externo percebe o ato efetuado. Isso acontece também nas relações entre homem-mulher, pai-filho, etc. Por natureza, estamos ainda muito impregnados aos sentidos. Principalmente ao visual.
Às vezes, um preconceito pode ser útil. Ao exemplo, novamente individual, dos meus primeiros dias de aula. Existia na escola uma turma que era taxada como indisciplinada. Essa informação me fez tratar a turma de uma maneira diferente. De dispensar um tempo especial para analisar o que havia de diferente naquela sala. Eu entrei com uma pseudo-jurisprudência que fez com que eu fosse preparado. E isso definitivamente ajudou no nosso (meu e dos alunos) relacionamento. A situação se tornou estável e eu nunca tive problemas de indisciplina naquela sala. O que também é muito importante é estipular metas, e o primeiro dia de aula é muito propício para isso. A expectativa pode mudar vertiginosamente o sentido e o resultado a ser alcançado. O segredo nessa etapa é tentar não taxar certos alunos – que podem ser efetivamente melhor dispostos a determinadas condições – como melhores e outros como piores, ou pelo menos, tratar ambos como capazes e elogiar sempre qualquer que seja o avanço alcançado. Incentivo é muito importante num processo desgastante, onde muitos não vêem reciprocidade ou ganho algum, que é a educação. Cito uma frase de autor desconhecido: “Uma pessoa por querer, faz mais do que dez por dever”. O aluno deve se sentir acima de tudo, capaz e valorizado.
Para terminar esta sucinta análise, gostaria de frisar a importância do contato entre as partes no processo de educação. A educação se dá a partir do relacionamento dos envolvidos. Professor-aluno, aluno-aluno, etc. Sem este contato não há educação (aprendizado é diferente). É fato de que a forma como lidamos com esses tipos de relacionamento influenciam diretamente na facilidade, rapidez e aceitação da pessoa para com o estudo. Basta cada um, na sua realidade, estudar possibilidades de fazer do seu jeito, sem que o seu jeito conflite com o que tem que ser feito, ou seja, assumir um compromisso com a função em que se desempenha. Ou seja, como já apontei anteriormente, ser professor, ou simplesmente ensinar, é muito mais do que uma profissão, é um estado, um comprometimento, que exige da parte interessada muitas privações e habilidades. Porque o aprendizado é nada mais do que um “jogo” de relacionamentos.